O meu Conto de Natal

Estamos no Natal e como sempre, a minha aldeia está coberta de neve. Antigamente, nesta época, em todas as casas existia uma lareira acesa. Sentia-se na rua o cheiro a resina queimada e a pinho seco, que estalava nas lareiras. Os vizinhos eram todos amigos. Gente simples, para quem esta sempre foi uma das mais belas quadras do ano. Os pinheiros decorados com pinhas douradas, velas acesas nos parapeitos das janelas, os presépios de musgo e os presentes que cada um podia oferecer.
Para os mais modestos, um punhado de castanhas assadas, que sobrassem da ceia, colocadas no sapatinho dos meninos, religiosamente dispostos na lage da lareira. Esses, aqueles a quem a vida menos sorria, levavam por justificação o facto de não se terem portado bem durante o ano, e o embuste servia-lhes de motivação para o ano seguinte.

Nesta quadra, fosse em casa farta ou no mais humilde casebre, as cortinas permaneciam abertas. As decorações natalícias eram uma constante em todos os lares.
Na noite da consoada, a aldeia cheirava a bacalhau cozido com couves, a rabanadas e doces de abóbora, a filhoses e a vinho doce.
De fora chegavam os filhos da terra, que tinham partido em busca de melhor sorte, mas que naqueles dias faziam questão de regressar ao seio da família, a abraçar os seus e a partilhar o espírito da época. Cantavam-se os Reis a todas as portas e em todas se entrava, a molhar a palavra, ou simplesmente a aquecer as mãos na lareira. As crianças brincavam na neve. Abriam-se as portas da capela, arejavam-se os altares e na noite do dia 24 celebrava-se a missa do galo.
Por toda a serra entoavam cânticos de louvor ao menino Deus, que podiam ouvir-se ao longe, na escuridão da noite, desde aquele ponto de luz, no vale profundo, entre as encostas da Serra de São Macário, onde a fogueira ardia, no centro da praça, até ao romper da aurora.

Este ano, Nicolau encontrou na aldeia uma tristeza generalizada. Há 20 anos que vive em Lisboa, onde fez a vida, mas o Natal sempre foi passado na casa da família. Os pais já não são vivos, mas a casa, que fora já dos seus avós, mantém-se igual aos tempos áureos, em que a aldeia era povoada e as festas atraiam multidões.
A tradição perdeu-se. Foram crescendo e casando. Remaram cada um para o seu lado e os velhos, condenados ao isolamento, foram morrendo. Hoje restam apenas seis habitantes na terra e poucas são casas que se mantêm habitáveis.
Ainda se juntam nesta quadra; ele, os irmãos e a maioria dos seus colegas de infância, com as famílias que foram formando, e a aldeia enche-se de vida. Os que não conseguiram manter as casas de família, ficam alojados onde houver lugar. Há sempre espaço para mais um, ou uns quantos.

Desta vez faltou muita gente e dos que vieram, poucos trouxeram o mesmo espírito de antigamente. Muitos estão desempregados e com graves problemas financeiros.
A tristeza e preocupação é visível no rosto dos que foram chegando, tanto como na dos que ligaram a dizer que este ano não estariam presentes. “As coisas estão más e não há dinheiro para comprar presentes aos miúdos, nem para as compras para a consoada”, eram as palavras que ia ouvindo, da boca da maioria…

Logo de manhã, Nicolau deu uma volta pela serra. Tinham chegado já de noite e demoraram a acartar as coisas para casa. Os carros não chegam à aldeia. Há que estacionar a mais de um quilómetro e caminhar a pé até ao centro.
Subiu a ladeira e sentou-se num penedo, junto à ribeira, onde há tantos anos tinha aprendido a nadar. Ele e todos os outros, rapazes ou raparigas. Não havia separação de sexos nas suas brincadeiras. Ali eram todos adolescentes. Todos nadavam nus, longe dos olhares acusadores dos mais velhos, naquelas águas, que mesmo no mês de Agosto eram geladas, por estarem tão perto da nascente.
Com o sorriso matreiro que o caracteriza, lembra-se de como todos os amigos foram vítimas das suas travessuras, como por exemplo, verem as roupas amarradas a uma pedra e atiradas para o fundo da pequena lagoa.

Deste ponto pode ver toda a aldeia. As casas ainda habitadas, as ruínas das que, com os anos, foram sendo abandonadas. Os campos ainda ajardinados e os que foram criando mato, na falta de quem os monde. As casas são todas de xisto, com os telhados do mesmo material, ou em telha fontela, destoados pelo passar dos anos e pela acumulação de musgos. O pequeno cemitério, onde jazem os restos mortais dos seus antepassados. Como é bonita a sua aldeia!

Invadido pela nostalgia, decide que tem de fazer algo. Pelo menos nesta quadra, não se vai render aos problemas que afectam a tantos dos que fazem parte da sua vida. Faltam dois dias para o Natal e ele quer contrariar a crise.
Desce a encosta a correr, vai a casa, dá um beijo à mulher e diz-lhe que vai a Lisboa. Chama o filho mais velho e faz-se à estrada. No caminho vão ligando aos que tinham decidido não vir. A ceia da consoada será por sua conta. Quere-os a todos ao seu redor, independentemente das dificuldades de cada um.

Entra em casa e diz ao filho para colocar em sacos tudo o que sejam brinquedos de quando ele e o irmão eram mais novos, mesmo os mais usados. Enquanto isso, passa pelo armazém e compra uma caixa de bacalhau. Deve dar para umas 50 pessoas. Com algum que os outros tenham levado, dá para toda a gente. Se for preciso juntam-se mais couves e batatas. Com boa vontade come sempre mais um.

Voltam à estrada, com a mala do carro cheia. Pára na drogaria para comprar umas latas de tinta e na papelaria para levar folhas de cartolina, pratas e outros materiais de decoração. A caminho da aldeia, passa pela quinta de um tio, leva um barril de vinho e umas garrafas de abafado. Compra bastante farinha para fazer o pão e as filhoses. O resto há na aldeia, com fartura. Ovos, abóboras, castanhas, hortaliças, batatas, azeite, leite…

Na tarde do dia 24, de volta à terra, reúne o pessoal e conta-lhes o que decidiu fazer. Cada um procura no sótão ou na arrecadação, tudo o que tinha a ver com o Natal e que possa ser usado. No fim, surpreenderam-se com as autenticas relíquias que encontraram. Neste Natal, farão apenas uma árvore e um presépio, no centro da velha praça, ao lado da fogueira, onde assarão as castanhas e cantarão os Reis.
Com as folhas de cartolina fazem umas enormes estrelas e outros tantos sinos, forrados a prata, para decorar o largo e a capela.
Alguém se lembrou de ligar ao João, um filho da terra que se fez Padre, para que venha rezar a Missa do Galo, que há mais de quinze anos não se celebra ali.

O resto do dia foi passado nas decorações. Cortaram um enorme pinheiro que enterraram num balde cheio com terra e pedras.
Puxaram corrente do gerador comunitário para acender os vários pisca-piscas que colocaram na árvore e nas varandas das casas.
Nas janelas e nos alpendres acenderam velas. Foi preciso improvisar uma cobertura, feita de troncos e ramas de pinheiro, porque a neve não pára de cair.

O bacalhau foi cozido ali, na fogueira da praça, em panelas de três pés, de ferro fundido, como era feito nos seus tempos de catraio.
As mulheres encarregaram-se dos doces e da mesa. Os pratos, talheres e copos são de várias cores e modelos, porque vieram uns quantos de cada casa, mas quem se preocupa com isso?

Depois da ceia chegou o Pai Natal, transportado na única carroça de burros que sobreviveu na aldeia. Ao entrar na aldeia, simulou um acidente, que espalhou os presentes todos pelo chão de granito. Assim justificaria o facto de muitos já não parecerem novos. Da dúzia e meia de crianças que estavam presentes, os mais velhos correram a ajudá-lo a recolher os brinquedos e a distribuí-los por todos. O encanto da cena fez com que nenhum se importasse por estarem sujos de terra e de neve, esfarrapados. Pouco antes da meia-noite, abriram-se as portas da capela. Entraram todos, em júbilos de louvor, a beijar o Menino Jesus, com a mesma emoção de antigamente.

Entraram todos, menos eu…

Olá! Sou o Nicolau. Estou aqui sentado, na nascente da ribeira que banha a minha aldeia. Imagino um joelho em ferida, pela queda da carroça. Quase que lhe sinto as dores. Está frio, mas não me incomoda. O coração ferve…
Ali em baixo, naquele clarão que estão a ver, fica a minha terra, que hoje está em festa.
Ouviram o cantar dos Reis? Foi lindo! Não houve ricos nem pobres, nem desempregados, nem letras em atraso, nem ordens de despejo, nem casas sem electricidade, nem assaltos, nem filhos na cadeia, nem tristeza.
Fumo um cigarro e bebo uma malga de vinho doce, cansado, mas feliz. Hoje devolvi o Natal aos meus amigos. Pelo menos, àqueles que se conseguiram rever neste pequeno conto.

ps: se conseguiste ler esta história até ao fim, um SANTO NATAL para ti…

Francisco Vieira

6 Comentários:

  1. É molhar os olhos cada frase que escreveste aqui... e a sensação de Nicolau eu entendo muito bem!
    Como não ler um conto seu até o fim, hã?
    Um conto especial carregado de sentimentos. É isto que gosto demais nos teus escritos, Francisco.

    Beijoca

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  2. reconheço bem o sentimento de esse filho da ria
    eu próprio tenho isso de sangue.
    o destino arrancou me daqui deste local encantador e enviou me para bem longe enfrentar outras aldeias com outras culturas.
    mas sempre foi esse mesmo sentimento de fazer parte desta paisagem desta cultura que me fez regressar.

    explicas-te isso perfeitamente no teu poema

    (je te tire mon chapeau mon ami )


    gafanhoto

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  3. É impossível não ler esta história até ao fim.
    Até eu que já não acredito no Natal, me senti renascer...
    Obrigado, Francisco.

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  4. Como não ler até o final meu amigo?
    Acabo de ler sempre querendo mais!
    Bjs e uma linda semana pro cê!

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  5. Meu caro amigo Francisco;
    Reli com todo o prazer este excelente conto, e, tal como da primeira vez a emoção abraçou-me e guiou-me aos Natais da minha infância.
    Abraço.

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  6. meu caro amigo
    li e reli esta tua história onde pude constatar que as nossas infancias teem muito em comum.
    acho que tambem podia contar uma história assim.
    um Feliz Natal para ti e já agora para o resto da humanidade
    um abraço

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Obrigado pela visita. Este espaço é seu. Use e abuse, mas com respeito, principalmente por quem nos lê. Francisco