Estamos em maus lençóis!

Em abono da verdade, o título desta crónica deveria afirmar que há muito tempo andamos em maus lençóis, mas como do passado não reza a história e o povo tende a ter memória curta, de nada nos adianta o “eu não vos disse?!” ou o “afinal, as profecias acontecem…” porque, no que tem a ver com a crise, raros serão os que se lembram de algum conselho mais coerente que lhes tenha sido dado há meia dúzia de anos.

Certo é que a coisa agora é oficial: estamos realmente em maus lençóis!!! Estamos e não se vê luz ao fundo do túnel. Nos meus quarenta e três anos de vida, não me lembro de ver e ouvir tanta desgraça junta. Sinceramente, pela primeira vez na vida, temo pelo futuro. Não tanto por mim, porque sinto que mais de metade da safra está feita e o que dela reste, com um empurrão daqui e outro dali, chegará o barco a bom porto. Temo por aqueles que colocámos no mundo e pelos que ainda virão, cujo futuro será mais longo e seguramente mais triste que o nosso…

É que não se avistam medidas fiáveis, quem as tome, ou sequer quem as invente! Os governantes do mundo andam mais atordoados que baratas tontas. Por todo o lado surgem relatos de desordens financeiras e de incumprimento para com os compromissos assumidos.
As convergências avançam, a austeridade aumenta e, como sempre, quem mais se recente são os que ainda têm algo a perder, mas não o suficiente para se manterem imunes às investidas ferozes e fugazes de quem vê no açambarcamento ilícito e injusto, a saída mais fácil e rápida deste pantanal para onde nos atiraram.

E desestabilizam-nos a vida! De todo o lado chegam notícias alarmantes, escândalos económicos e políticos. São falências e ameaças de falência. São especulações das agências de rating, incompetentes ou encomendadas, tanto faz, porque as consequências levam-nos sempre e aos mesmos, para o mesmo sítio. Começámos por fazer parte dos PIGS (porcos, para quem não sabe): Portugal, Itália, Grécia e Espanha. Actualmente já não se percebe bem a que grupo pertencemos. Talvez ao das “VACASGORDAS”, uma vez que a arritmia financeira ameaça agora também os animais mais gordos e fortes da Zona Euro, como a Alemanha, a França e outros. Sim, esses que até aqui se consideravam elite, que punham e dispunham a seu belo prazer e conveniência, que engordavam com a austeridade que nos impuseram, agora parece que também já tremem!.

O povo está farto. Nota-se o insaciável apetite, a desenvergonhada escalada dos “barões” e a ineficácia de quem os poderia conter. Lá fora é como se vê e o que se vê não é muito melhor do que aqui. O que hoje é verdade amanhã é mentira, tudo ao molho e fé em Deus.

Cá dentro o panorama não muda em nada. São agentes infiltrados nas greves, os assaltos à mão armada que se multiplicam; caixas de Multibanco escaqueiradas; polícias sem pistas e sem meios, a liberdade de expressão ameaçada, a imprensa subornada, fazedores de opinião que se contradizem como quem muda de camisa; o futebol a mandar na política e na justiça; o desemprego a subir; pobres cada vez mais pobres; a classe média a evaporar; jovens cientistas a levarem o seu talento para o estrangeiro; licenciados no desemprego; mercados monopolizados; seniores marginalizados; subsídios cortados; homens e mulheres de quarenta anos, que depois de uma vida inteira de trabalho, são obrigadas a emigrar, porque aqui são consideraras velhas demais para trabalhar; hospitais e escolas a fechar; património público a ser vendido ao desbarato, incluindo bancos falidos e igrejas; taxas moderadoras a subir; portagens implantadas em tudo quanto é estrada; impostos a aumentar e o turismo a fugir da nossa austeridade; sindicatos inexplicavelmente acomodados, com greves convocadas e desconvocadas, como que por magia; políticos e gestores corruptos, a burlarem-se da justiça; incompetência a rodos e recompensada; crimes a prescrever sem que seja feita justiça, processos arrastados por anos e em risco de se perderem provas cruciais, por culpa da burocracia; ladrões, vigaristas e assassinos em liberdade; advogados vendidos a criminosos e outros a vigarizar inocentes e indefesos…e tantas, mas tantas outras desgraças, que estaríamos aqui todo o dia a numerá-las.

E tudo isto para quê? Para nos mantermos na Comunidade Económica Europeia? Para nos refugiarmos na Zona Euro?

E porque não a deixamos? Porque não assumimos a incapacidade de competir com os grandes da Europa e deixamos de uma vez por todas de ser os bombos da festa? Porque não saltamos borda-fora, enquanto temos alguma possibilidade de salvação? A CEE transformou-se num barco à deriva, e o naufrágio é uma questão de tempo e/ou de conveniência. Visto isto, porque teremos todos de naufragar com ela? Afinal de contas, se nunca comandamos o barco, porque temos de saltar com os últimos, ou afundar com eles? Por orgulho? Por gratidão? Em nome das esmolas que nos deram, sabe Deus a que custo?!

Como nação, estamos a perder a credibilidade, beliscando uma história honrosa, que por séculos nos orgulhou. Como povo, já perdemos a dignidade, a moral e a esperança. Cruzámos os braços e esperamos agora, qual cordeirinhos em fila, pela guilhotina que nos há-de roubar o último suspiro!

Depois disso, que nos restará? Emigrar? Deixar-nos colonizar? Quem nos há-de salvar?!

Ai Portugal, Portugal…quem te viu e quem te vê…

Francisco Vieira
Para o jornal Not
ícias Ribeirinhas

4 Comentários:

  1. Amigo, o título poderia ser "estamos "#$%&€!"...

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  2. Sóbrio e certeiro. Sair do euro é imperativo. Para regredirmos, façamo-lo sozinhos, enquanto podemos mandar aqui dentro. Caso contrário...

    Excelente texto, Francisco.

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  3. O teu lamento, mais bem escrito e mais completo, encontra eco no meu lamento de hoje no meu blog.
    Eu, ao contrário de ti, dou nome aos burros, é apenas isso...

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  4. Desejo felicidade,
    prosperidade, saúde,
    realizações, paz e tudo
    de melhor para você e toda
    a sua família nestas festas.

    Feliz Natal! Feliz Ano Novo!
    Bjs

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Obrigado pela visita. Este espaço é seu. Use e abuse, mas com respeito, principalmente por quem nos lê. Francisco