Em jeito de balanço, olho para o que foi este ano que agora termina e apetece-me fugir...

Mas fugir para onde, se por todo o lado nos chegam notícias de crise e de austeridade? Existe um sem número de "curandeiros" milagrosos, cheios de ideias e opiniões, mas o certo é que todas as soluções apresentadas apenas aumentam os sacrifícios de quem trabalha, a desigualdade social, o enriquecimento imoral (senão ilícito) de uns quantos e a pobreza extrema de quem mais não pode do que gemer e chorar.

As estatísticas mostram queda em muitos sectores, mas dão-nos conta de aumentos na venda de artigos de luxo. Aqui bem perto temos um exemplo: enquanto a construção praticamente parou em todo o Concelho e os pedreiros tiveram de mudar de ramo ou emigrar, olhamos para a N327 e só entre as Quintas do Norte e a Vila da Torreira estiveram este ano mais de uma dúzia de moradias de luxo em construção.

Não vejo mal algum nisso, muito pelo contrário. Quem dera que tornássemos a ver o auge da construção na Murtosa dos anos oitenta e noventa, em que rara era a rua onde não se via pelo menos uma obra. Dos mais variados tamanhos e preços, é certo, no entanto, desde o doutor ao pescador, toda a gente construía pelo menos quatro paredes para se recolher. Mas a realidade de hoje mostra-nos algo diferente e triste: só os ricos têm direito a viver dignamente.

Na última década inflacionou tudo, menos os ordenados. Ao comum assalariado, por mais que se estique, no final do mês não lhe sobra para mandar cantar um cego, quanto mais para comprar uma palete de tijolos e uns sacos de cimento. Os que sonham ter casa própria, por mais humilde que seja, empenham-se para o resto da vida, com empréstimos a pagar em 50 anos. Quantos deles trabalharão toda a vida e a herança que deixarão aos filhos, serão dividas por pagar...

Mas nem todos! Não esqueçamos os "chicos-espertos", os "de Olhão"...chegamos a um ponto em que não compensa ser-se trabalhador e honesto. Ou bem que se é vivaço e se mete a mão onde se pode, quase sempre impunemente, ou então burla-se o Estado e recebe-se todo o tipo de ajuda. É revoltante ver famílias serem realojadas em casas novas "ao preço da chuva", com rendas mensais de 10 euros, mas com bons carros na rua e outros bens claramente visíveis, porque apresentam rendimentos falsos, sem que alguém se preocupe em avaliar a veracidade dessas declarações, enquanto outros trabalham e lutam a vida inteira, escravizados por um sistema que lhes consome o suor e a alma, até à última gota.

É o mundo em que vivemos...ou melhor, é o que fizeram do mundo!
Gostava de vos dar conta de uma realidade diferente e de vos deixar aqui palavras de esperança para o novo ano que se avizinha, mas não vejo luz ao fundo do túnel, num futuro próximo. Ainda assim, aconselho-vos a que se aguentem firmes, sem perder a dignidade. Que seja essa a última a morrer. Pouco mais nos resta...

Um Bom Ano a todos.

Francisco Vieira

Para o jornal Notícias Ribeirinhas

2 Comentários:

  1. Eu quase tenho medo de desejar um Bom Ano.

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  2. Francisco
    Não oiço os noticiários e deixei de ler os jornais pois acabo por entrar na onda do pessimismo...Não, não faço como a avestruz...Sei como está o país e as consequências de um governo desastroso mas, recuso-me a não saudar o novo ano!
    É um tempo que veio para estar connosco...são 366 dias, nos quais, os de boa vontade e coragem, podem mudar muita coisa...Não podemos é baixar os braços e pormos a cabeça no cadafalso! É urgente mudarmos de atitude e mostrar que este país tem ainda muita, mas muita boa gente capaz de modificar o cenário negro aonde nos colocaram.
    Por isso, contrariando tudo e todos, desejo-te um ano muito feliz, com sucesso, amor, saúde e alegria.
    Beijo.
    Graça

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Obrigado pela visita. Este espaço é seu. Use e abuse, mas com respeito, principalmente por quem nos lê. Francisco