Ascendi(e) pelos nossos bolsos adentro.

A minha crónica de hoje baseia-se no testemunho de alguns amigos, que se queixam dos abusos da Ascendi. Para quem não sabe, a Ascendi é a empresa responsável pelas portagens nas ex-SCUT, agora transformadas numa espécie de auto-estradas, com uns sistemas de cobrança manhosos (leia-se burlões).
Eu sou dos que resistiram a esse tipo de cobrança. Não que me afecte substancialmente a sua implementação. Uso semanalmente uma destas vias, mas como residente e estando estabelecido na proximidade da mesma, como utente da Via Verde, tenho direito a 10 viagens gratuitas por mês, o que para mim chega e até sobra, por vezes.
No entanto, e a muito custo, acabei por aderir ao sistema de pagamento automático, por uma questão de conveniência, uma vez que a alternativa é o pagamento nos CTT ou nos Payshop, com trinta cêntimos de despesas administrativas por cada passagem. Só que os prazos para pagamento, nos dias a seguir à passagem nos pórticos são tão apertados e o serviço é tão irregular, que as probabilidades de se conseguir pagar sem penalizações são por vezes raras, senão nulas.
Exemplo: para quem passe num Domingo, teoricamente teria até Sexta-feira para pagar (cinco dias úteis), mas como na Segunda e na Terça e por vezes até na Quarta-feira, o sistema ainda não acusa a passagem, o condutor fica limitado a dois dias para efectuar o pagamento. Aconteceu-me por mais que uma vez dirigir-me aos correios, tendo a certeza de que tinha portagens por pagar e ser-me dito que não devia nada. Não devia porque era muito cedo, ou muito tarde para pagar. A solução passa depois por contactar a empresa, ou esperar pela factura, que vem com os valores normais de utilização, acrescidos de 2,90 euros por cada pórtico.
É nessa altura que começam as surpresas, porque as facturas demoram sempre meses sem conta para serem emitidas, de forma a inflacionar os valores em divida.
Um amigo recebeu a factura de uma viagem efectuada em Dezembro de 2010. Jura que na altura tentou pagar dentro dos cinco dias normais, mas depois da terceira ida ao Payshop, sem sucesso, decidiu esperar que a empresa o contactasse. Em má hora tomou tal decisão, pois por uma viagem a Vigo, em que deveria ter pagado 10 euros, apareceu-lhe, em Agosto deste ano, uma factura com esse valor, mais 54 euros de despesas administrativas, para pagar em quinze dias.
Inconformado como só ele, contactou a empresa, fez barulho, ligou para a Deco e não pagou. Há uma semana recebeu outra factura, com os 64 euros, mais 175 euros de coima. Isto para pagar num prazo de quinze dias e apontando-lhe já o valor da próxima, se não se resolver a regularizar agora a situação: a partir do dia 8 terá que desembolsar 415 euros, se quiser evitar uma ida a tribunal.
Ora bem...isto não é ficção! Aconteceu a alguém que eu conheço, como pode acontecer a qualquer um de nós. E não se trata de um caso pontual.
Por mais surpreendente que vos possa parecer, este roubo descarado é prática comum. E atenção que não estamos aqui a falar dessas empresa-fantasma que aparecem de vez em quando a tentar entrar pelos bolsos adentro ao pessoal. Esta é uma empresa certificada, com parcerias publico-privadas, que negoceia directamente com o estado português!
Está errado! Em todos os aspectos! O utente não é obrigado a aderir à Via Verde e os prazos permitidos para pagamento, para além do incomodo de ter de se deslocar a um balcão, são surreais.
Agora pergunto: se o utente não conseguiu pagar a tempo, e uma vez que só lhe são concedidos cinco dias para o fazer, porque não lhe enviam a factura dentro dos próximos cinco dias, sem custos acrescidos? Se a nós nos concedem apenas cinco dias para pagamento, porque demoram depois oito meses para enviar a factura? E de onde saem os dois euros e noventa de acréscimo, para um pórtico que custa vinte cêntimos?! Serão juros de mora? Mas se demoram oito meses a cobrar, como se atrevem a cobrar juros?!
E ainda assim, mesmo depois destas vigarices todas, como é que uma divida passa de 10 para 415 euros no prazo de um ano?
E em quanto lhe vai ficar, se este cidadão resolver apelar e recorrer a quem de direito? E quais são os critérios do "quem de direito" para analisar um caso destes? Que terra é esta? Que gente é esta?!
Querem cobrar portagens? Então coloquem formas de pagamento decentes. Não nos compliquem a vida, propositadamente, para depois nos chuparem o sangue! O pouco que nos resta!!!

Ai Portugal, Portugal...quem te viu e quem te vê...

Francisco Vieira
Para o jornal Notícias Ribeirinhas

4 Comentários:

  1. Impressionante!
    Eu, embora utilize pouco o automóvel, aderi quase de início à Via Verde, por uma questão de comodidade; não se espera nas portagens, e dá vantagens em variados estacionamentos e até em bombas de combustível.
    Mas ninguém é obrigado a aderir a este sistema e o caso relatado é mesmo escandaloso.

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  2. Apesar de mostrarem um Brasil fora de crise ainda tem muita coisa a ser feita, só que a mídia mostra somente o lado colorido e belo das atrocidades que acontecem por aqui. Pelo visto, apesar de toda corrupção espalhado por aqui estamos melhores do que a EUROPA sim, mas não se pode descuidar porque a bocada é cada vez maior no quesito ROUBALHEIRA!!! Assim vamos, meu amigo.
    Fico FELIZ com sua passagem por lá.
    Grande abraço!!!

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  3. Anónimo22/12/11

    Olá,
    Gostei imenso do artigo.
    É uma roubalheira total. Aconteceu-me o mesmo em Dezembro 2011.
    Valor de portagens 28€ valor a pagar 314,3
    Mudei de residencia e não recebi a carta inicial.
    Somos roubados pelo Estado e Parcerias à descarada.
    Coloquem portageiros ou máquinas automáticas nas autoestradas ou ex-scuts. Assim... sim!
    Bom Natal
    Paula

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  4. A vigarice apoderou-se também do Estado.

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Obrigado pela visita. Este espaço é seu. Use e abuse, mas com respeito, principalmente por quem nos lê. Francisco