Somos uma terra pobre, de gente maioritariamente mal formada, mal renumerada, com recursos limitados. No entanto, no que toca a viver de aparências, não conheço raça que nos ultrapasse.
Esta tendência evidencia-se até na morte. E não me refiro apenas ao luxo a que muitos se esforçam por alcançar, na hora de prestar a última homenagem a um ente querido, tanto na escolha da urna e de outros pormenores do funeral, como depois, na construção dos túmulos, que cada vez mais se assemelham a grandes obras de arte, revestidos a mármore e bronze, como se de Monumentos Nacionais se tratasse.
Todos os anos, no Dia dos Fiéis Defuntos, os exageros expressam-se de novo, com as romarias ao cemitério.
E que luxo, meus caros! Que luxo se vê nas sepulturas!!
Longe vão os tempos em que as donas de casa guardavam religiosamente os vasos de crisântemos, para que os primeiros dias de vendaval não os destruíssem, antes desta data. Hoje compram-se arranjos de flores de nobreza tal, que mais parecem retirados da mesa de honra de qualquer jantar presidencial.
E as velas? Já repararam na nova geração de velas que se vendem à porta dos cemitérios? Este ano, porque tinha tempo e para não falar sem conhecimento de causa, dei-me ao trabalho de as apreçar.
Os preços variavam entre os cinquenta cêntimos e os dezoito euros, desde a simples lamparina de plástico, até à mais elaborada armação em vidro, com mais aspecto de bibelô, do que de vela. Sem grandes surpresas, rapidamente me apercebi de que as mais baratas eram as menos vendidas.
Longe vão os tempos em que, para a maioria, as decorações deste dia se limitavam a caiar a campa, retocar as letras da cruz, retirar um balde de terra, substituindo-o por outro de areia branca e enfeitar as jarras com as flores colhidas dos vasos do alpendre da casa.
As convencionais velas eram depois parcialmente enterradas na areia e acesas na hora de rezar o terço.
Longe vão os tempos e no entanto, não são passados mais de trinta anos.
Na minha adolescência, ia-mos passeando pelos vários talhões do cemitério, recolhendo os tocos das velas, que ao outro dia eram aquecidos e transformados em bonecos de cera. Era o momento alto do dia.
Os putos de hoje nem devem saber o que isso é, quanto mais fazê-lo.
Mudaram os tempos e as vontades. As mentalidades também mudaram e mudaram sobretudo os valores.
Mas que ninguém se iluda! A terra é pobre (mais por conveniência de alguns, do que por natureza), mas ainda assim, alberga algumas fortunas.
No entanto, não são dos seus familiares, as sepulturas que ostentam tão exagerados sinais de luxo.
Exagerados, principalmente para a época que atravessamos…
Francisco Vieira
Para o jornal Notícias Ribeirinhas
Fui ao cemitério da Covilhã, no dia de finados, ao cair da tarde. Vi em todo o local, quatro pessoas.
ResponderEliminarParece que foi tudo no dia 1.
Nos dois sítios a que me dirigi, o jazigo de família onde está o meu Pai, velho e cheio, deixei uma flor em cima da sua urna.
Na campa térrea onde está minha irmã, havia uma jarrinha pequena com flores, muito simples, e lá deixei uma pequena rosa: tudo muito singelo e simples, como deve ser.
Francisco
ResponderEliminarPerdoame o tempo que não passo por aqui, tinha saudades, mas aos poucos estou voltando a poder visitar os blogs de quem estimo.
Excelente post, fiquei impressionado com a tumba da foto, realmente é uma obra de arte para se colocar numa sala grande, ao lado da lareira e próximo a um piano.
Espero que esteja tudo bem contigo.
E o restaurante, está tudo indo bem com essa crise que vocês estão passando por aí?
Abs
Francisco
ResponderEliminarAgradeço a tua passagem cá em casa. É bom rever amigos.
Nos cemitérios agora é o ano todo com arranjos de flores e velas. Cada um procura mostrar mais que o vizinho,
Gosto sempre de te ler. Um estilo próprio mas suave e com raízes da tua terra.
Juntar a isso a choradeira-olhadela para o lado, o "sofro tanto" e o "só-eu-sei"...
ResponderEliminarVivo num concelho onde o parecer é muito mais importante do que o ser e, por isso, compreendo bem este teu post.
Já agora, este post lembrou-me uma anedota sacana: conheces aquela da viúva que ao cemitério e urinava sempre em cima da campa do marido?
Dizia ela que "cada um chora por onde tem mais saudade..."
:D