Nos tempos que correm, a palavra de ordem é poupar. Por todo o lado se podem ler artigos de opinião, ou assistir na comunicação social, a entrevistas que são autênticas palestras sobre a matéria.
De repente, fomos contaminados pela febre da poupança. Logo nós, a quem nas ultimas décadas, tanto se incentivou ao consumo...
Mas se repararmos, esta a que agora nos aconselham, não é uma poupança qualquer. Nem os "especialistas" que diariamente se dobram em esforços para mais uma vez nos lavarem o cérebro, são cidadãos anónimos, independentes, preocupados com o nosso futuro.
Então vejamos: de forma generalizada, os actuais conselhos passam por poupar na alimentação e na vida social a que alguns (cada vez menos) ainda se podem dar ao luxo. Agora até contam quanto gastamos no café que tomamos na rua.
Não nos aconselham a deixar de tomar café, note-se. Apenas a que deixemos de o tomar fora de casa. Actualmente, todos os hipermercados vendem máquinas e café, para ser tomado em casa. Beber uma cerveja no bar também è considerado um desperdício. O certo é comprar as bebidas no hipermercado e beber em casa.
Outro dos conselhos mais frequentes é que compremos produtos de marca branca, significativamente mais baratos. Produtos esses que podem ser adquiridos onde? Nos hipermercados.
Para uma maior poupança, aproveitemos os cupões e as promoções em cartão. Pagamos o mesmo, mas ficamos com crédito acumulado. Assim temos de voltar lá para a semana, mesmo que nos apeteça ir a outro lugar qualquer.
Que deixemos de almoçar fora. Os hipermercados oferecem-nos uma vasta gama de refeições pré-confecionadas, prontas a colocar no microondas do refeitório da empresa. Microondas, esse aparelho milagroso, quase extraterrestre, que os hipermercados também vendem.
Jantar fora então, passou a ser crime. Para quem não sabe ou não tem tempo de cozinhar, basta passar pelo Take Away dos hipermercados e leva o jantar já confeccionado. Não importa que compremos confeccionado, aquilo que fresco talvez já não se vendesse.
Resumindo, a resolução dos nossos problemas passa pelos hipermercados. Esses que, onde chegam destroem tudo ao seu redor. Esses que já acabaram com talhos, peixarias, frutarias, mercearias, drogarias, boutiques, sapatarias, papelarias, querem agora fechar também os restaurantes e os cafés.
Sigamos os conselhos dos entendidos e passemos a ser assim uma espécie de seres robotizados, com rotas pré-definidas: Casa, trabalho, hipermercado, casa…
Passemos a abastecer nas bombas dos hipermercados. As outras que desapareçam, que não fazem falta nenhuma. Façamos a revisão aos carros em casa. Basta comprar o óleo e os filtros no hipermercado. Os mecânicos também podem emigrar.
Os hipermercados serão seguramente capazes de nos absorver o mísero salário. Não precisamos de mais nada e seremos felizes para sempre.
Enquanto isso, para compensar tantos impostos que deixaram e deixarão de ser pagos pelo comércio tradicional, pode-se sempre subir o Iva e baixar os ordenados. Afinal de contas, com tanta poupança, para que precisamos de ganhar tanto?!
Francisco Vieira
Para o jornal Notícias Ribeirinhas
De repente, fomos contaminados pela febre da poupança. Logo nós, a quem nas ultimas décadas, tanto se incentivou ao consumo...
Mas se repararmos, esta a que agora nos aconselham, não é uma poupança qualquer. Nem os "especialistas" que diariamente se dobram em esforços para mais uma vez nos lavarem o cérebro, são cidadãos anónimos, independentes, preocupados com o nosso futuro.
Então vejamos: de forma generalizada, os actuais conselhos passam por poupar na alimentação e na vida social a que alguns (cada vez menos) ainda se podem dar ao luxo. Agora até contam quanto gastamos no café que tomamos na rua.
Não nos aconselham a deixar de tomar café, note-se. Apenas a que deixemos de o tomar fora de casa. Actualmente, todos os hipermercados vendem máquinas e café, para ser tomado em casa. Beber uma cerveja no bar também è considerado um desperdício. O certo é comprar as bebidas no hipermercado e beber em casa.
Outro dos conselhos mais frequentes é que compremos produtos de marca branca, significativamente mais baratos. Produtos esses que podem ser adquiridos onde? Nos hipermercados.
Para uma maior poupança, aproveitemos os cupões e as promoções em cartão. Pagamos o mesmo, mas ficamos com crédito acumulado. Assim temos de voltar lá para a semana, mesmo que nos apeteça ir a outro lugar qualquer.
Que deixemos de almoçar fora. Os hipermercados oferecem-nos uma vasta gama de refeições pré-confecionadas, prontas a colocar no microondas do refeitório da empresa. Microondas, esse aparelho milagroso, quase extraterrestre, que os hipermercados também vendem.
Jantar fora então, passou a ser crime. Para quem não sabe ou não tem tempo de cozinhar, basta passar pelo Take Away dos hipermercados e leva o jantar já confeccionado. Não importa que compremos confeccionado, aquilo que fresco talvez já não se vendesse.
Resumindo, a resolução dos nossos problemas passa pelos hipermercados. Esses que, onde chegam destroem tudo ao seu redor. Esses que já acabaram com talhos, peixarias, frutarias, mercearias, drogarias, boutiques, sapatarias, papelarias, querem agora fechar também os restaurantes e os cafés.
Sigamos os conselhos dos entendidos e passemos a ser assim uma espécie de seres robotizados, com rotas pré-definidas: Casa, trabalho, hipermercado, casa…
Passemos a abastecer nas bombas dos hipermercados. As outras que desapareçam, que não fazem falta nenhuma. Façamos a revisão aos carros em casa. Basta comprar o óleo e os filtros no hipermercado. Os mecânicos também podem emigrar.
Os hipermercados serão seguramente capazes de nos absorver o mísero salário. Não precisamos de mais nada e seremos felizes para sempre.
Enquanto isso, para compensar tantos impostos que deixaram e deixarão de ser pagos pelo comércio tradicional, pode-se sempre subir o Iva e baixar os ordenados. Afinal de contas, com tanta poupança, para que precisamos de ganhar tanto?!
Francisco Vieira
Grande texto, Francisco. Aqui há dias, respondi a quem me disse que o Belmiro podia falar como quisesse, enquanto empregasse 60.000 pessoas neste país. Respondi que para empregar esses todos, 300.000 já perderam o emprego no comércio tradicional. Esta é a verdade, há que o dizer. E tu disseste! Excelente texto, repito!
ResponderEliminarFrancisco, boa noite.
ResponderEliminarVamos todos poupar. Vamos poupar no pagamento de imposto com a economia paralela, vamos poupar nas comprar roubando o que é alheio e vamos poupar nos votos nas próximas eleições.
Os brasileiros é que gostam de uma boa "poupança" (e eu também, já agora:D).
Vê lá que podemos por o nosso rico dinheiro nas hiperpoupanças dos bancos, os mesmos que, em menos de um ano, perderam 80% do seu valor...
Está bonita, está..
Infelizmente assim é: cerca de 50% do dinheiro que gasto mensalmente; quase não gasto mais nada, pois o dinheiro é muito pouco.
ResponderEliminarO único vício é viajar para estar como Déjan e ir jantar num restaurante barato quando dá o Benfica na Sport Tv.
Francisco boa tarde!!!
ResponderEliminarAlgum tempo não passava por aqui, adorei voltar a ler os seus escritos, este é muito especial pois é um facto da mentalidade Portuguêsa!!!
Parabéns!!!
Lídia