O sino da igreja deu nove badaladas. Noutros tempos, esta era a hora em que o engraxador guardava as escovas e rumava a casa, de caixa às costas, para a tão esperada ceia.
É o toque das trindades. Essa sagrada hora, em que os novos deixam a lavoura e as velhas se arrastam em procissão, até ao adro da igreja, desfiando as contas do rosário, de onde arrancam suspiros, ave-marias e outras ladainhas.
Observo-as com ternura. Com saudades do tempo em que elas eram quarenta anos mais novas e eu era um cachopo irrequieto, que cruzava a praça a correr atrás das pombas e do autocarro. Que trepava ao marco do correio e me punha de pé, de braços abertos, como quem desafiava o mundo.
-Desce daí rapaz, que cais e te magoas! Raios partam a canalha, que nunca lhes dá por fazer boa coisa. Nem o diabo quis nada convosco e teve razão!
Olho-as agora, corpos dobrados, rostos e mãos marcadas pelo tempo, embrulhadas nos xailes negros, com que escondem do mundo as mágoas e as debilidades.
As pombas, que antes de eu nascer já aqui faziam ninho, sobrevoam-me, rasantes, trazendo-me aos ouvidos, deliciosamente, esta sensação de estar vivo.
Outras guerreiam por uma mísera migalha que alguém deixou cair.
Caem também as folhas das árvores da alameda, que o vento arrasta até mim.
O dia é de Outono, chuvoso e triste. O sino parou de tocar, mas os seus queixumes, no alto da torre, ainda me invadem os sentidos.
Comovo-me neste quadro onde me revejo e choro os anos que passaram. Os que sobrevivi apenas, por esse mundo de Deus.
Choro por todas as pombas que aqui nasceram, cresceram e morreram, sem uma única vez me sobrevoarem a cabeça. Por tantos toques das trindades que não escutei e por tantos xailes negros que não vi passar.
Há um miúdo que se proxima e encosta a bicicleta a um dos bancos da praça, à minha frente. Olha-me com curiosidade e corre na direcção da mercearia, do outro lado da rua. Observo-o. Espero-o, impaciente. Sorrio-lhe quando regressa, com o saco do pão. Olha-me de novo e desvia o olhar, timidamente. Pega na bicicleta e corre veloz, como quem foge de algo. Do desconhecido, deduzo...
Aperta-se-me o peito. Não há nada de errado no comportamento desta criança. Eu é que sou um forasteiro, na terra onde nasci...
Vida estranha, esta. Cheia de tudo, sem ter nada! Uma errante caminhada pelo mundo, sem pertencer a lugar nenhum.
Terra pobre, esta. Amada e maldita. Uma má mãe! Qual cadela vadia, que pare os filhos mas que não os ampara...
Eu, que sempre pensei e sofri em português, que nunca quis ser de outro lugar qualquer, sinto por vezes que também já não sou daqui...
Alimento as saudades, sentado num banco da praça da minha infância. Desta que foi sempre a praça dos meus sonhos.
Percebemos que envelhecemos e que vamos morrendo aos poucos, quando passamos a viver de recordações.
Francisco José Rito
(in Um Mar de Sentidos)
É o toque das trindades. Essa sagrada hora, em que os novos deixam a lavoura e as velhas se arrastam em procissão, até ao adro da igreja, desfiando as contas do rosário, de onde arrancam suspiros, ave-marias e outras ladainhas.
Observo-as com ternura. Com saudades do tempo em que elas eram quarenta anos mais novas e eu era um cachopo irrequieto, que cruzava a praça a correr atrás das pombas e do autocarro. Que trepava ao marco do correio e me punha de pé, de braços abertos, como quem desafiava o mundo.
-Desce daí rapaz, que cais e te magoas! Raios partam a canalha, que nunca lhes dá por fazer boa coisa. Nem o diabo quis nada convosco e teve razão!
Olho-as agora, corpos dobrados, rostos e mãos marcadas pelo tempo, embrulhadas nos xailes negros, com que escondem do mundo as mágoas e as debilidades.
As pombas, que antes de eu nascer já aqui faziam ninho, sobrevoam-me, rasantes, trazendo-me aos ouvidos, deliciosamente, esta sensação de estar vivo.
Outras guerreiam por uma mísera migalha que alguém deixou cair.
Caem também as folhas das árvores da alameda, que o vento arrasta até mim.
O dia é de Outono, chuvoso e triste. O sino parou de tocar, mas os seus queixumes, no alto da torre, ainda me invadem os sentidos.
Comovo-me neste quadro onde me revejo e choro os anos que passaram. Os que sobrevivi apenas, por esse mundo de Deus.
Choro por todas as pombas que aqui nasceram, cresceram e morreram, sem uma única vez me sobrevoarem a cabeça. Por tantos toques das trindades que não escutei e por tantos xailes negros que não vi passar.
Há um miúdo que se proxima e encosta a bicicleta a um dos bancos da praça, à minha frente. Olha-me com curiosidade e corre na direcção da mercearia, do outro lado da rua. Observo-o. Espero-o, impaciente. Sorrio-lhe quando regressa, com o saco do pão. Olha-me de novo e desvia o olhar, timidamente. Pega na bicicleta e corre veloz, como quem foge de algo. Do desconhecido, deduzo...
Aperta-se-me o peito. Não há nada de errado no comportamento desta criança. Eu é que sou um forasteiro, na terra onde nasci...
Vida estranha, esta. Cheia de tudo, sem ter nada! Uma errante caminhada pelo mundo, sem pertencer a lugar nenhum.
Terra pobre, esta. Amada e maldita. Uma má mãe! Qual cadela vadia, que pare os filhos mas que não os ampara...
Eu, que sempre pensei e sofri em português, que nunca quis ser de outro lugar qualquer, sinto por vezes que também já não sou daqui...
Alimento as saudades, sentado num banco da praça da minha infância. Desta que foi sempre a praça dos meus sonhos.
Percebemos que envelhecemos e que vamos morrendo aos poucos, quando passamos a viver de recordações.
Francisco José Rito
(in Um Mar de Sentidos)
Só se tem saudade do que é bom,
ResponderEliminarSe chorei de saudade não foi por fraqueza,
Foi porque amei.
E se eu amei, quem vai me condenar?
Se eu chorei, quem vai me criticar?
Só quem não amou, quem não chorou,
Quem se esqueceu que é um ser humano,
Quem não viveu, quem não sofreu,
Só quem já morreu... e se esqueceu de deitar
Nelsinho Corrêa
Bjs meu amigo querido.
Morrem...aqueles que não têm recordações para viver!! Isso, sim!
ResponderEliminarBeijocas.
Graça